sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O FIM DA INFÂNCIA

Minha mãe tinha por conceito que crianças antes da idade escolar eram apenas crianças, mas quando entrassem na escola deveriam assumir responsabilidades dentro de casa.
Como faço aniversario em julho entrei para o primário aos seis anos e meio, e assim que comecei a estudar minha mãe me encarregou da limpeza e conservação dos quantos e sala, nesse meio tempo minha mãe deu a luz seu único filho homem, Eduardo, e eu também fiquei responsável pelo cuidado dele.
Para ajudar na despesa e contas  minha mãe lavava roupa para diversas pessoas, e três vezes por semana ela trabalhava na casa vizinha a nossa, lavando roupas para a família que era composta dos pais, seis filhos, mãe e um irmão do dono da casa.
Eu já não tinha mais tempo para os folguedos de criança, tinha que dar conta do meu serviço, cuidar do bebe chorão e ainda fazer os deveres da escola, pois se chegasse na aula sem a lição de casa feita ficava de castigo.
O que eu mais detestava era cuidar do bebe, minha mãe não permitia que eu o pegasse no colo com medo que eu derrubasse, pois eu era muito pequena e magrinha para a minha idade, e esse moleque era gordo e chorava o tempo todo querendo colo, minha mãe quando estava em casa, do tanque ela gritava comigo..
- faça esse nenê parar de chorar ou eu corto você na espada de são jorge...
Eu chorava junto com o bebe, e com raiva chacoalhava mais forte o carrinho, um dia peguei o chorão no colo, sentei numa cadeira e ele por magica ficou quietinho, minha mãe veio sem fazer ruídos e me me pegou em flagrante, recebi golpes na costas enquanto corria por o bebe de volta no carrinho, depois levei mais espadadas nas costas, bunda e pernas.
Minha mãe foi uma pessoa ignorante com as filhas, segundo ela contava, minha avo espancava as filhas por qualquer motivo, se ela desse uma ordem era sempre em voz baixa, e se a filha não entendesse para evitar a vara de marmelo ficava agradando os irmãos pequenos para ir perguntar para a mãe o que ela tinha ordenado, então acredito que ela achava certo o modo com estava criando as meninas, pois o menino nunca teve obrigação nenhuma dentro de casa.
Minha mãe costumava ferver água para escaldar roupas mais sujas, então ela colocava 4 tijolos grandes dois de cada lado, uma lata cheia de água sobre os tijolos e gravetos com jornal embaixo, e assim acendia o fogo, depois ia ponto madeira e qualquer coisa que pudesse manter o fogo aceso.
Também fui incumbida dessa tarefa, então ela foi me ensinar como acender o fogo
- você coloca um pedaço de jornal, depois coloca os gravetos em cima, joga álcool e risca o fosforo, depois que o fogo pegar bem você coloca mais madeira.
Eu tentei varias vezes mas não conseguia acender o fogo, então minha mãe nervosa batia na minha cabeça e eu chorava
- praga dos infernos! praga dos incornos! você não presta pra nada!
- eu apanhava e chorava tentando acender o fogo com um litro de álcool na mão, se fosse nos dias de hoje provavelmente eu teria morrido queimada, mas naquele tempo todos os recipientes eram de vidros.
Cheguei a conclusão que a minha mãe me odiava e entrei em profunda depressão, na  minha tristeza escrevia bilhetinhos de despedida e deixava num lugar visível onde alguém pudesse encontrar, então fugia correndo subindo a nossa pacata Travessa da Capela e ia para a beira da avenida esperar um carro passar para me atirar na frente.
Eu ficava la por algum tempo, depois desistia, voltava para casa e rasgava a cartinha.
Uma vez minha mãe agradou a mim e a minha irmã Sonia para ajudar ela a lavar roupas prometendo nos dar um dinheirinho, a Sonia não se interessou, mas eu queria uns trocados para comprar doces na escola, então minha mãe colocou dois tijolões antigos de cada lado (eram tijolos de barro, mas naquela época cada tijolo valia por uns quatro em tamanho dos tijolinhos  atuais) e por sobre eles uma tabua para que eu alcançasse o tanque de concreto, então eu ia esfregando as roupas em água de sabão e torcia jogando no tanque ao lado com água limpa.
Mas a cor do dinheiro nunca vi, e esta passou a ser mais uma obrigação minha. Um dos fregueses de minha mãe era uma família enorme que morava num grande sobrado na Av Fagundes Filho, a trouxa que vinha era gigantesca, dentro da trouxa vários lenços de pano cheio de sujeira de nariz ( não tinha lenço descartável na época) que eu deveria esfregar ate limpar. Eu morria de nojo e chorava, esfregando aquela imundície e toda aquela roupa suja, uma vez eu tive uma ideia que não deu certo e acabou em pancadaria, ao invés de esfregar as roupas eu passei a jogar do tanque com água e sabão para o tanque de água limpa, mas o que eu não sabia e nem desconfiava era que a dona maria me vigiava do vitro do banheiro que ficava em frente aos tanques, ouvi o grito dela e comecei a tremer, pois sabia o que ia acontecer dali a pouco, surra com espada de são jorge ate ela se acabar, não me recordo bem como terminou esta fase, mas se não me engano foi meu pai que discutiu com minha mãe ao me ver toda marcada e proibiu que ela me obrigasse a lavar roupas dizendo que eu era muito pequena e já tinha obrigações demais dentro de casa, então ela substituiu essa obrigação por outra, eu passei a ir buscar e levar as roupas para os fregueses,  eu chegava a fazer quatro viagens para trazer toda a roupa a ser lavada.
A Sonia cuidava da cozinha e da comida, cafe, almoço e janta, eu da sala, quartos, do bebe e buscar e levar roupas para as freguesas, a Elizete era encarregada do banheiro e quintal, mas não fazia nem nem outro, ela era rueira, apanhava mas era só virar as costas e la estava ela na rua novamente.
O Eduardo cresceu com todo mimo e regalias, teve todos os brinquedos que quis, bicicletas, aparelho de som só para ele entre outras coisas, lembro quando eu já estava trabalhando e ele estava por volta dos 12 a 13 anos perguntei para minha mãe porque ele era tratado diferente de nos as meninas, ele não tinha obrigação alguma dentro de casa e passava a maior parte do tempo na rua.
- menino tem que ser criado solto na rua
Para tentar agradar a mãe, tanto eu como a Sonia fazíamos a  nossa obrigação o melhor possível, mas para a dona maria nunca estava bom o suficiente...
Ela também tinha a mania de comparar as filhas com as filhas da dona para a qual ela lavava roupas na casa três vezes por semana.
- vocês não prestam para fazer nada direito, olhem só as meninas da filomena...
- porque as meninas da filomena isso
- porque as meninas da filomena aquilo
Chegou num ponto que acabamos desistindo, se para ela as filhas da vizinha eram melhores do que nos então não valia a pena se dedicar tanto, passamos a fazer nossa obrigação de qualquer jeito o que deixou a dona maria mais furiosa anda, então aos 13 anos de idade resolvi que ia trabalhar fora para sair daquela situação, minha irmã mais velha junto com uma amiga conseguiram emprego para mim numa industria farmacêutica próxima a nossa residencia, passei a trabalhar durante o dia e estudar a noite, foi muito difícil, mas agora eu trabalhava por um salario, mas 25% do que eu ganhava deveria ser entregue para a dona maria.
Todos os meses da minha vida foram assim até eu mudar para a minha própria casa, no dia do pagamento minha mãe ficava de prontidão esperando a parte que eu devia lhe entregar. Fiz curso de auxiliar de enfermagem, profissão na qual eu me aposentei, e quando eu já trabalhava na área fazendo plantões noturno, fui no caixa eletrônico que na época ficava na rua, para retirar a parte da dona maria, mas uma pessoa entrou comigo dentro da cabine e me obrigou a retirar todo o dinheiro em conta para ele (na época podia sacar todo o valor da conta no caixa eletrônico) nada pude fazer, cheguei em casa chorando e expliquei para minha mãe o acontecido...
- Mãe, este mês não tenho como lhe dar o dinheiro, mas se a senhora concordar mês que vem dou uma parte e meia e no próximo mais uma parte e meia...
- Não da, você tem que arrumar o dinheiro, é para eu fazer a despesa...
Meu pai e as duas irmãs mais velhas fizeram uma vaquinha para eu poder dar os 25% para a dona maria, o mais engraçado é que tanto o único filho homem dela como a filha caçula nunca deram um tostão em casa e ela nunca reclamou.

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