
Eu devia ser muito pequena quando minha mãe contou para uma vizinha que eu tinha quase morrido ao nascer, lembro dessa mulher olhando para mim e dizendo...
- Que sorte você teve Tuquinha, você não era para estar neste mundo agora...
Na minha tenra idade entendi tudo errado, eu não era filha da minha mãe, eu era adotada!
Não lembro quanto tempo fiquei ruminando isso, acho que foram anos de depressão, angustia, chorar escondida ate entender que na verdade eu havia nascido com baixo peso (1,800k) e ter sangrado muito quando a parteira cortou meu umbigo sem margem para amarrar.
Fui levada para a escola aos seis anos e meio pela minha irmã mais velha Ana , a professora me levou ate uma carteira desocupada e me fez sentar, obedeci toda receosa não sabendo o que ia acontecer enquanto minha irmã e a professora preenchiam minha ficha de nova aluna.
Lembro que olhei para as duas e pensei exatamente assim enquanto elas estavam entretidas com a ficha...
- Não se o que ela ( a professora) tem no bumbum...
- Quem descobriu o Brasil foi Pedro Alvares Cabral...
Eu fique imaginando o que era o Brasil...
- Sera que é a minha casa?...
Imaginei a casa em que eu morava com a família toda coberta por um grande lençol e uma pessoa do lado de fora puxando até descobrir...
- Mas porque minha casa estaria coberta e quem foi essa pessoa que descobriu???...
Eu não entendia nada, nem sequer sabia o que era o Brasil, para falar a verdade eu mal entendia o que era uma escola, pois não fiz um pre-primário, para falar a verdade acho que naquele tempo nem existiam escolas pre-primaria
Meus pais viviam brigando na frente dos filhos por motivos banais, lembro de uma vez em que os dois gritavam e corriam ao redor do mesa, minha mãe ficava enchendo a cabeça dos filhos contra o marido e eu passei a ter raiva do meu pai
Minha família não tinha geladeira ou televisão, a unica distração era um radio onde minha mãe e minha irma mais velha gostavam de ouvir novelas se não me engano na extinta radio São Paulo.
Um dia vi meu pai chegar em casa acompanhado de duas pessoas que carregavam um grande embrulho, foi uma surpresa que ele fez para a minha mãe, um refrigerador Frigideire daquelas que tinham uma alça para abrir e fechar a porta, então eu pensei...
- Meu pai não é tão ruim como a mãe fala, olha só o presente enorme que ele trouxe para ela...
Minha irmã Ana comprou a nossa primeira televisão na época disponível apenas em preto/branco, uma Philco 23 polegadas com gabinete de madeira (todas eram assim)
Lembro que no começo a nossa unica programação eram os desenhos que passavam as 18h na Record, depois desligávamos com medo de acontecer qualquer coisa, pois na época era um produto muito caro e poucas pessoas poderiam ter uma (minha irmã comprou na extinta loja de departamentos Mappin para pagar em 24 meses com juros)
Minha mãe vivia me cutucando para contar pra ela tudo que eu ouvia meu pai falar, então um dia ele falou perto de mim que aquele aparelho de TV era uma grande merda e só servia para aumentar a conta de luz.
Fui rapidinho contar pra ela que chamou meu pai e na minha frente perguntou se era verdade aquilo que ele tinha falado sobre a televisão...
Ele me pegou pelos cabelos me encostou na parede e com um punho armado ameaçava socar a minha boca...
- Fala agora o que eu disse, fala que eu arrebento a sua boca!!!
Eu tremia feito vara verde enquanto minha mãe só olhava sem fazer nada, para mim pareceu que ela
estava bem calma e com um meio sorriso cínico
estava bem calma e com um meio sorriso cínico
Depois fiquei pensando porque minha mãe não tinha feito nada para me defender, me pareceu ate que ela estava conivente com meu pai, e se ele tivesse me surrado por eu ter feito exatamente o que ela me pediu? não entendi a atitude da minha mãe.
Meu pai tinha uma irmã por nome Nair, e essa minha tia sempre nos visitava, eu gostava dela, mas a minha mãe fazia a nossa cabeça contra a família do meu pai e falava muito mal especialmente dessa irmã dele
Lembro que certa vez ela foi em casa e eu com raiva das coisas que minha mãe contava a respeito dela não a cumprimentei, a tia querendo me agradar fazia perguntas para mim, eu respondia com monossílabos, ate que dei uma resposta bem atravessada...
- Não te interessa!
Minha mãe chamou minha atenção em voz alta e meu pai ficou todo desconcertado...
- Ela só esta nervosa...
Respondeu minha tia querendo abrandar a situação.
Depois que ela partiu levei uma surra daquelas da minha mãe, e fiquei mais uma vez sem entender, pois eu apenas estava demostrando para ela que estava do seu lado, que eu não gostava da tia Nair porque ela também não gostava.
Foi a partir desses fatos que comecei a compreender o estranho mundo dos adultos, nessa época eu deveria ter uns oito anos e pouco.


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