quinta-feira, 27 de setembro de 2018

MENINA FEIA, MENINA BONITA

Eu devia ter por volta dos oito anos de idade quando comecei a perceber que pessoas bonitas fisicamente tinham mais atenção e melhor trato.
Eu sou uma mulher perfeita, não tenho defeitos físicos, e apesar de estar na casa dos sessenta anos ainda tenho um corpo esbelto, seios firmes e não uso prótese dentaria, todos os dentes da minha boca são saudáveis, mas não fui uma criança bonita e não sou uma mulher bonita.
Ao contrario da minha irmã caçula cuja beleza chamava atenção desde criança, e na adolescência ganhou um corpo de  curvas bem femininas  e seios fartos (mas flácidos) que faziam todos os rapazes deseja-la, vou narrar neste post como ao passar do tempo notei estas diferenças.
Antigamente o leite era vendido em um litro de vidro característico, quem não tinha esse litro para trocar na hora da compra levava uma leiteira e tudo bem, como o bar na esquina da nossa rua começou a vender leite minha mãe me deu uma leiteira para eu ir la comprar, eu deveria ter por volta de uns nove anos de idade nesta época, cheguei no bar e estava entrando quando ouvi o balconista falar pra mim em voz alta:
- não tem leite
Então dei meia volta e desci a rua em direção a minha casa, eu sempre fui rápida para andar e sou ate dias de hoje, minha mãe me esperava no portão:
- o moço falou que não tem leite
- você não foi ate o bar,  não teria dado tempo
Ela mandou minha irmã menor que estava na casa dos sete anos, ela voltou com a leiteira cheia, e eu levei bronca, naquele dia comecei a pensar no acontecido e avaliar porque o balconista recusou vender leite para mim para em seguida vender para minha irmã, e falando com meus botões cheguei a conclusão que o balconista só vendia leite para meninas bonitas.
Eu estava cursando o quarto ano escolar quando ganhei do meu pai um pequeno radio de pilha que apresentou defeito, na avenida fagundes filho tinha uma oficina de consertos de aparelhos de tv, rádios e similares, eu estava com o pequeno aparelho nas mãos e fui entrar na oficina para ver se o radinho tinha concerto, não cheguei a entrar e nem a perguntar nada, pois o rapaz la de dentro olhou pra mim e falou em voz alta que não concertava rádios daquele modelo.
Terminei o primário e fiz um ano de admissão ao ginásio ou o quinto ano (ninguém entrava no ginásio sem fazer admissão ao ginásio) este foi o melhor ano para mim,  me sentia feliz, paquerei os menininhos, eu era muito magrinha então vestia duas calças para a roupa ficar mais justa, gostava de ficar desfilando na rua, ir na papelaria só para ver um rapaz que trabalhava numa oficina, ele sempre retribuía meus olhares.
Ano seguinte fiz o pequeno vestibular para o colégio estadual mais concorrido da cidade de São Paulo,  Prof Roldão Lopes de Barros no bairro do Cambuci, neste colégio a criança entrava no pre-primário e saia praticamente para a faculdade, era considerado a melhor escola estadual entre todas, e o  que mais chamava atenção era que no ensino colegial o aluno poderia escolher, entre normal, clássico e cientifico.
Mas o que tinha de ruim, os alunos na maioria rapazes do curso colegial praticavam bulling com os alunos do ginásio, eu fui uma vitima de carteirinha, tinha meus livros derrubados da minha mão, quando me abaixava para pegar vinha um e os chutava longe, quando passávamos em direção a sala de aula eles formavam um corredor polonês e humilhavam os alunos de varias formas, a preferida era ficar na frente enquanto passávamos e assobiarem estalando os dedos como se estivessem chamando cachorros.
Certa vez eu estava descendo a escadaria do portão de entrada para o patio do colégio e tinha uma
grupo do colegial conversando entre moças e rapazes, ao passar um deles falou apontando na minha direção:
- La vai a menina mais feia da escola
Senti meu coração apertado pela vergonha, abaixei minha cabeça e segui descendo a escada fingindo que não tinha ouvido.
Nesta época começaram a formar as famigeradas equipes em sala de aula, onde os alunos são divididos em vários grupos, então na minha equipe tinha meninos e meninas, entre eles dois alunos que nunca esqueci, Alexandre o bonitinho e Naristeu um rapaz mais robusto muito falante, e tinha uma menina de 14 anos muito vistosa, popular e bonita, de unhas compridas pintadas, maquiagem e uniforme bem justinho
Era a professora que sorteava o membros de cada equipe, um dia cheguei na sala de aula e sentei ao lado dessa menina, o Alexandre sentou num banco sozinho, mas antes falou bravo comigo:
- vc tinha que sentar ao lada da fulana? (não lembro mais o nome da menina)
Pensei comigo:
- é porque ela é bonita e eu sou feia.
Em outra ocasião eu fiquei numa carteira de dois lugares e a unica carteira de um lugar estava ocupada, os dois meninos Alexandre e Naristeu sentaram longe da equipe discutindo entre si, pois nenhum queria sentar ao meu lado apesar da professora ordenar que um deles deveria vir para o grupo, o Alexandre levantou a contragosto e veio sentar-se comigo, eu nem olhei para a cara dele de tão chateada que fiquei. 
Resolvi trabalhar e rápido consegui emprego, pedi transferência para outro colégio próximo da minha casa para o horário noturno, uma noite durante o intervalo, eu estava no patio, um menino passou perto de mim e cuspiu, me afastei e ele cuspiu novamente e novamente, não sei como é dias de hoje, mas naquela época quando um rapaz cospe perto de uma moça quer dizer que ele a despreza por vários motivos  mesmo que não a conheça como era o meu caso
e isso aconteceu diversas vezes quando eu era jovem.
Teve um tempo em minha juventude que eu e minhas irmãs passávamos feriados e finais de semana na praia em barracas com amigos, um dia andando perto dos quiosques na areia, vi dois jovens senhores bebericando e comendo frutos do mar, ouvi o terrível comentário de um deles dirigido a mim:
- isso é que é avacalhação, não tem atrativo algum e andando de biquíni por ai
Senti meu coração apertar, apressei meus passos e segui para a barraca, eu não era tão feia assim, eu era uma mulher pequena, magra mas não ao extremo, barriga tanquinho, peitos pequenos e firme, usava um biquíni discreto, nunca entendi tanto preconceito assim na minha vida, mas foi por causa de tantos comentários maldosos que me tornei  introspetiva, fechada e com muito medo do sexo masculino, não fazia amizade com rapazes.




quinta-feira, 20 de setembro de 2018

INOCÊNCIA DE CRIANÇA

Quem disse que criança não guarda magoa, ou não se sente mal quando está brincando inocentemente e é questionada por um adulto sobre o tipo de brincadeira?
Coisas que nunca entendi por parte da dona maria, que me agradava para contar alguma coisa prometendo que eu não seria castigada, mas nunca cumpria a palavra.
Certa vez meu pai comprou um jogo de mesa com cadeiras todas estofadas, na minha ingenuidade eu queria saber o que tinha dentro do estofado, maior que o medo foi a curiosidade e com uma faca abri o estofamento da cadeira...
- quem fez isso com a cadeira nova?
- quietinha
- fala tuquinha, vc viu quem fez?
- quietinha
-  pode falar eu não vou te bater
- ah eu queria saber o que tinha dentro
Ela me bateu apesar da promessa, foi assim que aprendi a não confiar nos adultos
Meu pai trabalhava como continuo na prefeitura de são Paulo ganhando pouco, minha mãe ajudava lavando roupas para fora, nossa mistura diária era batatinha frita, aos domingos depois da missa meu pai passava na avícola e comprava um frango (não tinha supermercados na época e frango era vendido vivo)  leite nem pensar, era muito caro, então nosso desjejum era só o cafe com pão mesmo.
A situação financeira melhorou um pouco, minha mãe passou a comprar leite, mas no inicio eu não gostei, não estava acostumada, só que eu ia na casa da vizinha e esta vizinha me dava um copo cheio de leite e eu tomava tudo, certo dia ela comentou com a minha mãe
- a tuquinha gosta muito de leite né dona maria
- como assim, aqui em casa ela não toma de jeito nenhum
- toda vez que ela vai em casa eu dou um copo de leite ela toma tudo
Então minha mãe começou a me apertar para saber porque na dona Lucia eu tomava leite e em casa
não, ela não me soltou enquanto eu não respondi
- porque o leite de la é mais gostoso
- a resposta não agradou e acabou em pancadaria
Quando minha mãe estava gestante do seu caçula, uma das inquilinas me perguntou:
- onde esta o bebe da sua mãe?
Eu passei a mão na barriga da minha mãe e respondi
- esta aqui
Minha mãe sorriu amarelo e desconversou, depois que a mulher se retirou ela me pegou pelo braço e perguntou
- quem te falou que tenho bebe na barriga?
- Ninguém
- então como você sabe?
Eu apenas sabia, ninguém me falou ou explicou alguma coisa, desta vez ela deixou passar, mas com uma bela bronca.
Vi meu pai levando a dona maria para o hospital, e depois de alguns dias ela voltou para casa com um bebe no colo, então junto com minha irmã menor pegamos nossas bonecas e fomos brincar de hospital, fingindo que ganhamos nossas bonecas e que estávamos voltando para casa.
- do que vocês estão brincando?
a irmã menor bem mais esperta falou na hora
- estamos brincando que nossas bonecas estão doente e levamos ao hospital
Quando eu estava completando dez anos a dona maria deu um livrinho para eu ler, li e não entendi nada. aconteceu aos onze anos, senti algo úmido e quente saindo da minha vagina e escorrendo pela coxa,  fui no banheiro verificar, era sangue! fiquei desesperada, eu não tinha caído, ou sofrido qualquer trauma e sequer estava sentindo dor, fiquei com vergonha e coloquei uma folha de jornal dobrada na esperança daquele sangramento parar logo, mas não aconteceu.
Eu acreditava que tinha me machucado mas não tinha coragem para falar com minha mãe , acordei no dia seguinte e disfarçando falei:
- nossa! acho que tinha fiz xixi na cama,
A dona maria veio olhar e exclamou
- a tuquinha ficou mocinha!
Não entendi, como assim eu fiquei mocinha?
Ela mandou a Sonia conversar comigo, me ensinar como colocar paninho e essas coisas, mas esta minha irmã muito vergonhosa não me ensinou nada.
Eu pensei que aquele sangramento seriam todos os dias da minha vida, ninguém me explicou que seriam de três a cinco dias por mês, o restante aprendi sozinha mesmo.

sábado, 15 de setembro de 2018

PESSOAS COVARDES

Eu me considerava uma pessoa covarde, medrosa que ficava sempre pelos cantos procurando ficar invisível, mas quando a pressão era grande demais eu reagia.
Vou relatar neste post alguns episódios em que passei por situações difíceis e que ate dias de hoje doí no meu coração.
Apanhei do meu pai três vezes quando criança,  a primeira foi por uma briga que tive com minha irmã caçula quando eu ainda nem tinha entrado para a escola, estávamos brincando num cercado onde meu pai de vez em quando criava porcos, não recordo como começou a briga, mas lembro do sabor terrível provocado pelo fio de ferro na minha coxa, golpe dado por meu pai cuja marca ficou vermelha na hora, passando para roxo e depois para uma cor próxima ao preto que levou muito tempo para desaparecer. 
A segunda vez que ele me bateu eu estava brincando de pegador com a irma acima de mim, corríamos indo e voltando  pelo longo corredor que levava do portão ao fundo do quintal, meu pai trabalhava como pedreiro na casa dos meus padrinhos que era do lado da nossa, não entendo porque ele se irritou tanto, mas lembro dele praguejando com um cinto na mão, a dor da cintada nas costas, eu correndo para escapar da segunda, tropeçando, caindo no chão e implorando para ele não me bater, mas ele já tinha voltado par seu serviço.
A terceira vez foi um ato covarde da minha irmã Sonia que é dois anos e meio mais velha do que eu, acredito que eu devia ter por volta de uns seis anos, estava na cozinha descascando uma laranja e ela estava na sala não sei fazendo o que, escutei o som alto de alguma coisa caindo no chão e quebrando e o choro dela, continuei a descascar minha laranja quanto ela veio para a cozinha e falou olhando para mim...
- você é culpada!
Ela saiu para o quintal enquanto eu cortava minha laranja ao meio, peguei minhas duas metades e fui para fora saboreando a fruta que eu gostava tanto.
- porque você quebrou o vaso?
Senti meu pai pegando no meu braço e as primeiras pancadas no meu corpo, as duas metades da laranja caíram no chão enquanto eu recebia novas pancadas, não tenho ciência do quanto apanhei, mas quando meu pai me largou o choro que brotou do fundo da minha alma não foi por causa das pancadas, mas por ter apanhado inocente, entre soluços falei que não tinha derrubado nada, que eu estava na cozinha descascando laranja, e quem tinha quebrado o vaso era a Sonia que estava na sala e não eu.
- Sonia, você mentiu para mim, foi você que quebrou o vaso da sua mãe?
- de cabeça baixa sem resposta
- eu bati na Tuquinha sem ela merecer??? porque você fez isso???(com a voz embargada)
Ele ficou tão desconcertado que simplesmente baixou a cabeça e foi para o quarto sem falar mais nada enquanto eu soluçava compulsivamente.
Não lembro o que aconteceu depois, o que sei e que a Sonia não foi castigada por ter quebrado o vaso ou por eu ter apanhado no seu lugar, e por mais que eu viva nunca esquecerei essa injustiça, esta é uma das maiores magoas que guardo da minha irmã.
Minha irmã mais velha tem o gênio um pouco parecido com o meu com algumas diferenças, ela é mesquinha em relação as irmãs,  mas mão aberta e muito boa com os de fora, quanto a mim mesmo que a pessoa tenha me magoado geralmente volto a ajudar se for necessário, tanto faz se for da família ou não, eu tinha 23 anos e trabalhava na Santa Casa de São Paulo, tinha uma pessoa do centro cirúrgico que me contou a triste estoria de uma conhecida sua, lembrei de alguém que podia ajuda-la, mas quando fui ter com essa pessoa a ajudada não seria mais possível.
Conversando em casa sobre o assunto, a Sonia falou que alguém do serviço dela poderia ajudar, mas não era para falar que ela estaria intermediando, assim ela nos forneceu o andar sala mesa e nome da possível benfeitora que realmente ajudou, mas passado alguns dias, a Sonia chegou em casa agitada falando alto que alguém do serviço havia dito que duas pessoas muito parecidas com ela tinham ido la procurar fulana, e com medo de alguma coisa dar errado ela foi logo tirando o dela da reta...
- eu só mencionei, eu só mencionei, é vocês que foram la!!!
Ela falava gritando, agitada, deixando claro que ela não tinha nada a ver com o ocorrido, foram semanas e meses tentando desfazer o que achávamos ter feito certo sem sucesso, com o tempo achamos melhor deixar pra la, nada de mal ocorreu.
Essa mesma irmã trabalhou num pronto socorro municipal, e depois de algum tempo de trabalho, a supervisora saiu de ferias e ela foi encarregada de substituir a chefe no decorrer daqueles trinta dias, ela ao meu ver se tornou chata, e até mesmo aos domingos aparecia de surpresa para supervisionar o serviço. Lembro do dia que ela chegou em casa aos berros assustando a nossa mãe porque o pessoal do PS tinha aprontado uma boa para ela.
Eu passei por muitos apuros com amigas de setor quando eu trabalhava em industrias farmacêuticas e em hospitais como auxiliar de enfermagem, sofri muito com as mentiras, acusações, pegação no meu pé e outas coisas, mas nunca cheguei em casa gritando de boca aberta incomodando minha mãe, eu sempre procurava resolver meus problemas aonde tinha deixado.
Em 2014 fui morar com ela algum meses ate meu apartamento ser entregue, um dia o interfone tocou eu atendi, a portaria informou que um técnico da samsung estava la para atender um pedido de revisão da maquina de lavar, como ela não estava e não me passou nada sobre visita técnica da samsung, informei ao porteiro que ia entrar em contato por celular com a proprietária e em seguida retornava na portaria.
Falei com a Sonia que negou ter solicitado a visita técnica e recomendou varias vezes para não recebesse ninguém.
Então retornei para a portaria e informei que não havia solicitado técnico algum
- mas ele esta aqui com o nome completo dela bloco e AP, inclusive o carro tem o logotipo da empresa
- mas não é para deixar entrar
- esta bem
A Sonia chegou e entrou com tudo no condomínio de táxi, desceu no subsolo bem ao lado do elevador, achei um tanto dramático e exagerado o medo dela, mas vai se saber se não estava certa.
Trabalhei um mês e meio no Hospital Sírio Libanês para nunca mais, ótimo salario mas péssimo tratamento para os funcionários.
A enfermeira encarregada não foi com a minha cara e começou a me destratar de imediato, faltava alguns minutos para a passagem do plantão, o atendente de enfermagem muito solicito se apresentou a mim, me convidou para sentar ao seu lado e começou a explicar alguns procedimentos obrigatórios. Assim que a que enfermeira chegou me olhou e falou...
- você mal chegou e já esta sentada?
- estou explicando os procedimentos do andar para ela
Ela gritou com o Carlos que se afastou imediatamente e continuou a me dar bronca sem eu entender porque, foram os piores dias de minha vida profissional dentro do sírio libanês, tempo que não faço questão alguma de lembrar, o que percebi no decorrer do tempo que trabalhei naquele hospital:  aquela mulher tratava com amizade e cortesia as funcionarias de cor tanto da enfermagem como da limpeza ou de qualquer outro setor, e as pessoas de pele clara ela maltratava e humilhava sem distinção.
Para resumir, trabalhava na mesma unidade em que eu estava uma mulher parda, e tanto ela como a japona se tratavam como amigas, teve dois episódios em que essa mulher que era também uma auxiliar de enfermagem jogou a culpa de seus erros em mim,  a primeira foi sobre materiais de curativos que era de responsabilidade dela, na contagem da manha faltou uma pinça, ela na minha frente me culpou, eu que sequer entrava no expurgo, mas fiquei quieta, a segunda vez ela estava com problemas de micose e a enfermeira preparou um tipo de escalda pés com medicação para ela e me ordenou para preparar e ministrar a medicação do andar.
Sem problemas, comecei a preparar a medicação enquanto ela ficava com os pés na bacia, mas assim que a enfermeira deixou o andar ela me falou...
- pode deixar Roseli, que eu cuido de preparar e administrar a medicação
- mas a Dona Tomiko falou para eu ficar no seu lugar e deixar você  ficar no atendimento aos pacientes junto com o Carlos
Ela disse que ia ficar com a medição mesmo, então eu fiquei no atendimento que consiste em atender as campainhas, fazer o controle de sinais vitais, limpar e trocar pacientes sempre que o acompanhante solicitar, fazer encaminhamentos para exames e etc.
No decorrer do plantão a enfermeira passa no setores para verificar o andamento do serviço e deu de cara com ela preparando a medicação da madrugada.
- eu  falei que era para a Roseli cuidar da medicação para poupar você
- Ah, mas ela não quis ficar na medicação
Aquilo me subiu a cabeça e na hora respondi
- foi você que não me deixou ficar na medicação
Ela simplesmente se calou e a japona foi embora sem nada comentar sobre o ocorrido.
Covardes sempre procuram jogar a culpa dos seus erros sobre inocentes sem sequer se preocupar com o que pode acontecer com a pessoa,  se eu for contar quantas vezes fui injustiçada a estoria não vai terminar nunca.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

PRIMEIRA COMUNHÃO, PECADOS E MENTIRAS

Quando em crianças acreditamos em tudo que nossos pais falavam, exemplo disso quando brincadeiras e folguedos se tornavam barulhentos e incomodavam nos era dito que estávamos cometendo graves pecados, mas pecado mortal mesmo era não comer repolho, eu detestava repolho refogado e minha mãe brigava comigo dizendo que eu ia para o inferno quando viesse a falecer. 
Chegou o dia da minha primeira confissão que foi num sábado, eu estava nervosa e olhava a todo instante a ``listinha de pecados´´ escrito num papelzinho e que deveria contar ao padre no confessionário. Chegou minha vez, então ajoelhei diante da casinha do confessionário para a primeira reza: 
- ``padre esta é minha primeira confissão e coisa e tal´´
 Peguei minha listinha e comecei a cantar:
- desobedeci minha mãe
- não fiz o dever de casa
- não comi repolho porque não gosto
O padre mandou eu rezar três aves-marias e um pai-nosso e estava perdoada
No domingo foi meu grande dia, de vestido branco e véu cobrindo a cabeça, fiz a primeira comunhão, todas as garotas passavam aquele dia vestidas de noivinha, eu também queria ficar com meu lindo vestido branco o dia inteiro, mas a dona maria não deixou:
- tira logo esse vestido que tem muito serviço pra fazer 
Por vários anos continuei indo aos sábados na igreja para ajoelhar diante do confessionário e falar sobre meus deslises de criança, levava sempre uma listinha de pecados para não esquecer de nenhum,  o padre mandava sempre rezar três aves-maria e um pai-nosso, aos domingos comungava e ficava tudo bem.
Teve uma vez que não consegui me lembrar de nenhum deslise, então comecei a pensar como era
definido um pecado, a menina que mentiu para a professora falando pra ela que eu não sabia orar não tinha cometido um pecado mortal? a outra que me bateu e abriu a boca a chorar dando a entender que eu é que tinha batido nela e ainda apanhei mais por causa disso não tinha cometido um grave pecado? e a minha irmã caçula que quase me fez morrer com uma mentira infame sobre um rapaz do qual eu estava gostando mas  que ainda não sabia como definir aquele sentimento? tem pecado maior que esse??? (falarei sobre esse episodio nos próximos posts)
Minha mãe não pecava em amar e proteger seu filho caçula e desprezar as filhas meninas, fazer a cabeça das filhas contra o pai, falar mal da tia que eu amava tanto, brigar com o marido na frente dos filhos? e quando ela falava aquelas coisas horríveis para mim por eu não conseguir acender o fogo para ferver água? não era pecado ela obrigar uma criança a lavar uma trouxa enorme de roupas nojentas com lenços cheio de ranho num tanque de concreto que eu mal alcançava ???
O que vem a ser o pecado afinal???
Com o tempo fui entendendo que todos mentem e pecam, seja para prejudicar alguém, para sair de uma situação difícil, ou até mesmo para momentaneamente ajudar alguém em apuros.
Aprendi que humanos são maldosos, mentirosos, desonestos e pisam em cima de qualquer pessoa até mesmo de familiares para conseguir algum beneficio, não conheço ninguém que não tenham pecados e que não mintam, só animais são sinceros, mostram todo seu amor para com seus protetores e refletem instantaneamente quando não gostam de uma alguém.
O mundo dos humanos é feito de pecados, mentiras, ilusões e maldades, sempre haverá um para nos atormentar  mesmo se procurarmos ficar o mais distante possível esse desafeto nos alcançará e vai fazer de tudo para nos prejudicar.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

SOBRE TELENOVELAS, SERIADOS E REVISTAS EM QUADRINHOS

Neste post vou falar um pouco sobre telenovelas, seriados e quadrinhos de revista, quando jovem eu assistia telenovelas porque a família assistia, quando mudei para a minha casa própria preferi outros programas tipo filmes seriados, reportagens e tal. (programas de auditoro detesto)
Mas no momento estou seguindo pelo canal Viva reprises de novelas que fizeram muito sucesso (A Indomada, Vale tudo)na Globo assisto Belíssima.
Curioso que nas novelas (belíssima por exemplo) no núcleo pobre os personagens tem empregada, moram em casarões enormes mobiliados com moveis de madeira maciça, uma grande mesa na sala de jantar em que a personagem mãe e filha mais velha sempre arrumam como se fossem receber visitas, com pratos talheres copos e guardanapos muito bem colocados, e muita comida.
No cafe da manha mesa está sempre farta com diversos tipo de pães bolos sucos e tal, o curioso é que o personagem pai não trabalha (talvez aposentado) perde todo o dinheiro nas corridas de cavalo inclusive o dinheiro das contas, mas vivem e comem muito bem, andam bem vestidos o tempo todo, as mulheres com roupas finas e sapatos de saltos, outro fato interessante, nenhum personagem assiste TV.
Acho que os autores de novelas não sabem como vive quem  paga aluguel, nunca devem ter entrado na casa de um cidadão de classe media baixa para saber a realidade da vida, a tinta descorada das paredes, os moveis de madeira aglomerada, a geladeira velha, o fogão pedindo para ser aposentado, o sofá com acento murcho e descorado de tanto uso onde as pessoas sentam com um prato de comida na mão para assistir programas e novelas favoritas. Outra curiosidade são os personagens que moram em apartamentos,  não deve ter portaria nos prédios e a entrada é aberta para todos, pois a pessoa chega, toca a campainha,  sem ser anunciada pelo interfone e o que surpreende é quado a visita vai embora, o anfitrião fecha a porta na cara do visitante que ainda esta se despedindo, fala serio!!!
Mas mesmo personagens que moram em casas ou mansão ocorre o mesmo, a pessoa vai entrando e quando o morador percebe o visitante já esta em sua sala.
Teve uma novela que assisti com a família faz muito tempo, se não me engano na rede Globo e o nome era ``Tropicaliente´´que contava a estoria de uma aldeia de pescadores, em que os personagens eram desembaraçados, falavam muito bem, tinham ótimas casas e os moveis todos de madeira maciça!!!
Quanto as séries, no momento assisto ``To de graça´´ no canal Multishow que tem como escritor e personagem principal Rodrigo Sant´Anna de quem eu gosto muito, mas para quem mora em comunidade (favela) e vive do que ganha como pedinte, o barraco e grande e cheio de coisas caras, realmente fora da realidade.
Sobre revistas em quadrinhos uma pergunta: porque os personagens femininos usam blusas cheias de frufru, sapatos de salto alto, chapéus, ou laços na cabeça, mas não usam roupas que cubram a parte de baixo? e os personagens masculinos usam fraque, cartola, bengala (tio patinhas) ou blusa estilo marinheiro (pato Donald) mas não usam calças???
Tem também o seriado de TV A Família Dinossauro, cujos personagens não usam roupas da cintura para baixo, o Bob por exemplo usa um agasalho de moletom tipo colégio, meias e tênis e mais nada, o pai usa uma camisa xadrez e só, a mãe usa um pulôver e avental mas na parte de baixo esta pelada, e a filha vive escolhendo roupas da moda mas esquece a parte de baixo, só o baby não mostra a bundinha porque usa fraldas, alguém me explica por favor!

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O FIM DA INFÂNCIA

Minha mãe tinha por conceito que crianças antes da idade escolar eram apenas crianças, mas quando entrassem na escola deveriam assumir responsabilidades dentro de casa.
Como faço aniversario em julho entrei para o primário aos seis anos e meio, e assim que comecei a estudar minha mãe me encarregou da limpeza e conservação dos quantos e sala, nesse meio tempo minha mãe deu a luz seu único filho homem, Eduardo, e eu também fiquei responsável pelo cuidado dele.
Para ajudar na despesa e contas  minha mãe lavava roupa para diversas pessoas, e três vezes por semana ela trabalhava na casa vizinha a nossa, lavando roupas para a família que era composta dos pais, seis filhos, mãe e um irmão do dono da casa.
Eu já não tinha mais tempo para os folguedos de criança, tinha que dar conta do meu serviço, cuidar do bebe chorão e ainda fazer os deveres da escola, pois se chegasse na aula sem a lição de casa feita ficava de castigo.
O que eu mais detestava era cuidar do bebe, minha mãe não permitia que eu o pegasse no colo com medo que eu derrubasse, pois eu era muito pequena e magrinha para a minha idade, e esse moleque era gordo e chorava o tempo todo querendo colo, minha mãe quando estava em casa, do tanque ela gritava comigo..
- faça esse nenê parar de chorar ou eu corto você na espada de são jorge...
Eu chorava junto com o bebe, e com raiva chacoalhava mais forte o carrinho, um dia peguei o chorão no colo, sentei numa cadeira e ele por magica ficou quietinho, minha mãe veio sem fazer ruídos e me me pegou em flagrante, recebi golpes na costas enquanto corria por o bebe de volta no carrinho, depois levei mais espadadas nas costas, bunda e pernas.
Minha mãe foi uma pessoa ignorante com as filhas, segundo ela contava, minha avo espancava as filhas por qualquer motivo, se ela desse uma ordem era sempre em voz baixa, e se a filha não entendesse para evitar a vara de marmelo ficava agradando os irmãos pequenos para ir perguntar para a mãe o que ela tinha ordenado, então acredito que ela achava certo o modo com estava criando as meninas, pois o menino nunca teve obrigação nenhuma dentro de casa.
Minha mãe costumava ferver água para escaldar roupas mais sujas, então ela colocava 4 tijolos grandes dois de cada lado, uma lata cheia de água sobre os tijolos e gravetos com jornal embaixo, e assim acendia o fogo, depois ia ponto madeira e qualquer coisa que pudesse manter o fogo aceso.
Também fui incumbida dessa tarefa, então ela foi me ensinar como acender o fogo
- você coloca um pedaço de jornal, depois coloca os gravetos em cima, joga álcool e risca o fosforo, depois que o fogo pegar bem você coloca mais madeira.
Eu tentei varias vezes mas não conseguia acender o fogo, então minha mãe nervosa batia na minha cabeça e eu chorava
- praga dos infernos! praga dos incornos! você não presta pra nada!
- eu apanhava e chorava tentando acender o fogo com um litro de álcool na mão, se fosse nos dias de hoje provavelmente eu teria morrido queimada, mas naquele tempo todos os recipientes eram de vidros.
Cheguei a conclusão que a minha mãe me odiava e entrei em profunda depressão, na  minha tristeza escrevia bilhetinhos de despedida e deixava num lugar visível onde alguém pudesse encontrar, então fugia correndo subindo a nossa pacata Travessa da Capela e ia para a beira da avenida esperar um carro passar para me atirar na frente.
Eu ficava la por algum tempo, depois desistia, voltava para casa e rasgava a cartinha.
Uma vez minha mãe agradou a mim e a minha irmã Sonia para ajudar ela a lavar roupas prometendo nos dar um dinheirinho, a Sonia não se interessou, mas eu queria uns trocados para comprar doces na escola, então minha mãe colocou dois tijolões antigos de cada lado (eram tijolos de barro, mas naquela época cada tijolo valia por uns quatro em tamanho dos tijolinhos  atuais) e por sobre eles uma tabua para que eu alcançasse o tanque de concreto, então eu ia esfregando as roupas em água de sabão e torcia jogando no tanque ao lado com água limpa.
Mas a cor do dinheiro nunca vi, e esta passou a ser mais uma obrigação minha. Um dos fregueses de minha mãe era uma família enorme que morava num grande sobrado na Av Fagundes Filho, a trouxa que vinha era gigantesca, dentro da trouxa vários lenços de pano cheio de sujeira de nariz ( não tinha lenço descartável na época) que eu deveria esfregar ate limpar. Eu morria de nojo e chorava, esfregando aquela imundície e toda aquela roupa suja, uma vez eu tive uma ideia que não deu certo e acabou em pancadaria, ao invés de esfregar as roupas eu passei a jogar do tanque com água e sabão para o tanque de água limpa, mas o que eu não sabia e nem desconfiava era que a dona maria me vigiava do vitro do banheiro que ficava em frente aos tanques, ouvi o grito dela e comecei a tremer, pois sabia o que ia acontecer dali a pouco, surra com espada de são jorge ate ela se acabar, não me recordo bem como terminou esta fase, mas se não me engano foi meu pai que discutiu com minha mãe ao me ver toda marcada e proibiu que ela me obrigasse a lavar roupas dizendo que eu era muito pequena e já tinha obrigações demais dentro de casa, então ela substituiu essa obrigação por outra, eu passei a ir buscar e levar as roupas para os fregueses,  eu chegava a fazer quatro viagens para trazer toda a roupa a ser lavada.
A Sonia cuidava da cozinha e da comida, cafe, almoço e janta, eu da sala, quartos, do bebe e buscar e levar roupas para as freguesas, a Elizete era encarregada do banheiro e quintal, mas não fazia nem nem outro, ela era rueira, apanhava mas era só virar as costas e la estava ela na rua novamente.
O Eduardo cresceu com todo mimo e regalias, teve todos os brinquedos que quis, bicicletas, aparelho de som só para ele entre outras coisas, lembro quando eu já estava trabalhando e ele estava por volta dos 12 a 13 anos perguntei para minha mãe porque ele era tratado diferente de nos as meninas, ele não tinha obrigação alguma dentro de casa e passava a maior parte do tempo na rua.
- menino tem que ser criado solto na rua
Para tentar agradar a mãe, tanto eu como a Sonia fazíamos a  nossa obrigação o melhor possível, mas para a dona maria nunca estava bom o suficiente...
Ela também tinha a mania de comparar as filhas com as filhas da dona para a qual ela lavava roupas na casa três vezes por semana.
- vocês não prestam para fazer nada direito, olhem só as meninas da filomena...
- porque as meninas da filomena isso
- porque as meninas da filomena aquilo
Chegou num ponto que acabamos desistindo, se para ela as filhas da vizinha eram melhores do que nos então não valia a pena se dedicar tanto, passamos a fazer nossa obrigação de qualquer jeito o que deixou a dona maria mais furiosa anda, então aos 13 anos de idade resolvi que ia trabalhar fora para sair daquela situação, minha irmã mais velha junto com uma amiga conseguiram emprego para mim numa industria farmacêutica próxima a nossa residencia, passei a trabalhar durante o dia e estudar a noite, foi muito difícil, mas agora eu trabalhava por um salario, mas 25% do que eu ganhava deveria ser entregue para a dona maria.
Todos os meses da minha vida foram assim até eu mudar para a minha própria casa, no dia do pagamento minha mãe ficava de prontidão esperando a parte que eu devia lhe entregar. Fiz curso de auxiliar de enfermagem, profissão na qual eu me aposentei, e quando eu já trabalhava na área fazendo plantões noturno, fui no caixa eletrônico que na época ficava na rua, para retirar a parte da dona maria, mas uma pessoa entrou comigo dentro da cabine e me obrigou a retirar todo o dinheiro em conta para ele (na época podia sacar todo o valor da conta no caixa eletrônico) nada pude fazer, cheguei em casa chorando e expliquei para minha mãe o acontecido...
- Mãe, este mês não tenho como lhe dar o dinheiro, mas se a senhora concordar mês que vem dou uma parte e meia e no próximo mais uma parte e meia...
- Não da, você tem que arrumar o dinheiro, é para eu fazer a despesa...
Meu pai e as duas irmãs mais velhas fizeram uma vaquinha para eu poder dar os 25% para a dona maria, o mais engraçado é que tanto o único filho homem dela como a filha caçula nunca deram um tostão em casa e ela nunca reclamou.

domingo, 2 de setembro de 2018

COMO ENTENDER RACISMO?

Neste post resolvi falar sobre racismo que é o grande vilão  entre brancos e negros. No meu tempo de criança e adolescente nos referíamos a pessoas negras respeitosamente como pessoas de cor. ex: aquele senhor de cor, aquela jovem de cor, aquela senhora de cor...mas hoje em dia isso seria causa para um grande mimimi.
Pessoas afrodescendentes mostram muito ressentimentos contra pessoas brancas por causa do tempo da escravidão entre os negros,  eu tive uma amiga negra que por qualquer motivo falava...
- É porque eu sou preta!
As pessoas afrodescendentes devem desconhecer que no mundo sempre existiu a escravidão desde os tempos das cavernas, antes e depois de Cristo quando um pais ou cidade invadia seu vizinho muita vezes sem motivo, apenas para saquear e escravizar o povo daquele lugar.
Os que os afrodescendentes  sabem, mas fazem de conta que não aconteceu é que os próprios africanos vendiam seus parentes, esposas, filhas, sobrinhos, irmãos e irmãs para mercadores de escravos, então eles mesmos escravizavam seus ``entes queridos´´
O próprio Zumbi dos Palmares, escravizava negros que fugiam e iam para o quilombo em busca de proteção, ele estuprava as mulheres que depois eram mantidas em carcere privado ficando a sua disposição. Mas antes da escravidão africana, entre 1500 ate 1800 existiu um tempo em que caçadores  semeavam o terror na Europa, escravos europeus, senhores africanos: uma situação insólita que só nos últimos tempos esta sendo objeto de estudos aprofundados pelos historiadores, é o quadro que temos daquela época, quando os cristãos eram chamados de ``ouro branco´´ nos mercados norte-africanos, grandes navios eram atacados pelos navios de caçadores de escravos, homens mulheres crianças e toda a tripulação eram capturados e levados para serem vendidos, as mulheres mais bonitas eram vendidas para haréns, e quando o numero de escravos se excedia eram então vendidos para a própria família em forma de resgate, segue abaixo o link para quem desejar pesquisar:

http://www.luispellegrini.com.br/escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa/

A rixa que existe entre brancos e negros está longe de acabar, hoje por qualquer motivo uma pessoa pode processar a outra por racismo, homofobia, xenofobia e outras coisas, eu quando criança sofri algumas agressões verbais de crianças negras e quando jovenzinha por volta dos 16 anos sofri agressão verbal de uma senhora já com certa idade, e até mesmo de uma mulher militar afrodescendente, vou relatar para vocês:
No meu tempo de criança e adolescência podíamos andar nas ruas livremente sem medo de assaltos, sequestros e outras coisas, era a época do governo militar, na escola em que estudei para voltar para casa tinha que atravessar uma avenida de duas mãos e entre elas tinha a linha do bonde, um guarda de transito estava sempre presente para atravessar as crianças da escola e qualquer outro cidadão, depois de algum tempo aprendi o caminho e minha mãe confiava em mim para voltar corretamente para casa.
Um dia eu estava voltando da escola e um grupo de meninas negras interceptou meu caminho com perguntas que no momento não chegou a minha compreensão de criança de sete anos
- Ei menina! você toma muito leite??? (rindo)
- eu não, porque?
Nessa época eu continuava mirradinha, era bem clarinha com sardas no rosto o que deve ter chamado atenção daquelas garotas afrodescendentes, por um tempo sofri bulling desse grupo, teve uma vez que elas correram atrás de mim ameaçando me bater
Aos 17 anos eu era uma mocinha pequena magrinha e minha pele continuava clara, só não tinha mais tantas sardinhas no rosto, eu gostava muito de ir na feira de domingo próximo a Praça da Arvore, eu ia a pé mesmo cortando caminho, numa certa vez uma senhora de cor acompanhada de uma jovem que acredito ser filha ou neta, estava caminhando na direção contraria a mim, ela já veio me encarando e a poucos metros de cruzar comigo falou alto me olhando:
- Parece um fantasma!
Bom, passei por ela de cabeça baixa, eu não entendi o rancor daquela senhora para com a minha pessoa, eu sequer a conhecia.
Uma outra vez, nesta eu já era maior de idade, fui com minha irmã comprar uma garrafa de coca-cola que na época era de vidro e continha um litro, na volta cortamos caminho por um campo aberto onde de vez em quando armavam circos e parques de diversão, cruzamos com uma militar afrodescendente, que já veio me encarando, e ao passar por mim me deu um belo esbarrão proposital  do meu lado esquerdo quase me derrubando, minha irmã me segurou para eu não cair e me puxou acelerando os passos...
- você conhece ela?
- eu nunca a vi antes
Esses são fatos que aconteceram comigo, mas acho que muitas pessoas já devem ter passado por situação semelhante, se alguém tiver alguma estoria parecida eu gostaria muito de saber, acredito que esse tipo de racismo não aconteceu só comigo

sábado, 1 de setembro de 2018

COMO UMA CRIANÇA ENTENDE OS ADULTOS


Eu devia ser muito pequena quando minha mãe contou para uma vizinha que eu tinha quase morrido ao nascer, lembro dessa mulher olhando para mim e dizendo...
- Que sorte você teve Tuquinha, você não era para estar neste mundo agora...
Na minha tenra idade entendi tudo errado, eu não era filha da minha mãe, eu era adotada!
Não lembro quanto tempo fiquei ruminando isso, acho que foram anos de depressão, angustia, chorar escondida ate entender que na verdade eu havia nascido com baixo peso (1,800k) e ter sangrado muito quando a parteira cortou meu umbigo sem margem para amarrar.
Fui levada para a escola aos seis anos e meio pela minha irmã mais velha Ana , a professora me levou ate uma carteira desocupada e me fez sentar, obedeci toda receosa não sabendo o que ia acontecer enquanto minha irmã e a professora preenchiam minha ficha de nova aluna.
Lembro que olhei para as duas e pensei exatamente assim enquanto elas estavam entretidas com a ficha...
- Não se o que ela ( a professora) tem no bumbum...
Lembro das primeiras aulas em que a mestre ensinava sobre o descobrimento do Brasil...
- Quem descobriu o Brasil foi Pedro Alvares Cabral...
Eu fique imaginando o que era o Brasil...
- Sera que é a minha casa?...
Imaginei  a casa em que eu morava com a família toda coberta por um grande lençol  e uma pessoa do lado de fora puxando até descobrir...
- Mas porque minha casa estaria coberta e quem foi essa pessoa que descobriu???...
Eu não entendia nada, nem sequer sabia o que era o Brasil, para falar a verdade eu mal entendia o que era uma escola, pois não fiz um pre-primário, para falar a verdade acho que naquele tempo nem existiam escolas pre-primaria
Meus pais  viviam brigando na frente dos filhos por motivos banais, lembro de uma vez em que os dois gritavam e corriam ao redor do mesa, minha mãe ficava enchendo a cabeça dos filhos contra o marido e eu passei a ter raiva do meu pai
Minha família não tinha geladeira ou televisão, a unica distração era um radio onde minha mãe e minha irma mais velha gostavam de ouvir novelas se não me engano na extinta radio São Paulo.
Um dia vi meu pai chegar em casa acompanhado de duas pessoas que carregavam um grande embrulho, foi uma surpresa que ele fez para a minha mãe, um refrigerador Frigideire daquelas que tinham uma alça para abrir e fechar a porta, então eu pensei...
- Meu pai não é tão ruim como a mãe fala, olha só o presente enorme que ele trouxe para ela...
Minha irmã Ana comprou a nossa primeira televisão na época disponível apenas em preto/branco, uma Philco 23 polegadas com gabinete de madeira (todas eram assim) 
Lembro que no começo a nossa unica programação eram os desenhos que passavam as 18h  na Record, depois desligávamos com medo de acontecer qualquer coisa, pois na época era um  produto muito caro e poucas pessoas poderiam ter uma (minha irmã comprou na extinta loja de departamentos Mappin para pagar em 24 meses com juros)
Minha mãe vivia me cutucando para contar pra ela tudo que eu ouvia meu pai falar, então um dia ele falou perto de mim que aquele aparelho de TV era uma grande merda e só servia para aumentar a conta de luz.
Fui rapidinho contar pra ela que chamou meu pai e na minha frente perguntou se era verdade aquilo que ele tinha falado sobre a televisão...
Ele me pegou pelos cabelos me encostou na parede e com um punho armado ameaçava socar a minha boca...
- Fala agora o que eu disse, fala que eu arrebento a sua boca!!!
Eu tremia feito vara verde enquanto minha mãe só olhava sem fazer nada, para mim pareceu que ela
estava bem calma e com um meio sorriso cínico 
Depois fiquei pensando porque minha mãe não tinha feito nada para me defender, me pareceu ate que ela estava conivente com meu pai,  e se ele tivesse me surrado por eu ter feito exatamente o que ela me pediu? não entendi a atitude da minha mãe.
Meu pai tinha uma irmã por nome Nair, e essa minha tia sempre nos visitava, eu gostava dela, mas a minha mãe fazia a nossa cabeça contra a família do meu pai e falava muito mal especialmente dessa irmã dele
Lembro que certa vez ela foi em casa e eu com raiva das coisas que minha mãe contava a respeito dela não a cumprimentei,  a tia querendo me agradar fazia perguntas para mim, eu respondia com monossílabos, ate que dei uma resposta bem atravessada...
- Não te interessa!
Minha mãe chamou minha atenção em voz alta e meu pai ficou todo desconcertado...
- Ela só esta nervosa...
Respondeu minha tia querendo abrandar a situação.
Depois que ela partiu levei uma surra daquelas da minha mãe, e fiquei mais uma vez sem entender, pois eu apenas estava demostrando para ela que estava do seu lado, que eu não gostava da tia Nair porque ela também não gostava.
Foi a partir desses fatos que comecei a compreender o estranho mundo dos adultos, nessa época eu deveria ter uns oito anos e pouco.