quarta-feira, 25 de setembro de 2019

A IRMÃ MORTA

Ela foi o braço direito da nossa mãe, começou a trabalhar em casa de família ainda criança, em algumas casas foi bem tratada, em outras humilhada e alimentada com sobras de comida. Aos dezesseis  anos começou a trabalhar em industrias farmacêutica, e estudando chegou ao nível de analista química na ultima empresa onde trabalhou por mais de trinta anos.
Ela se deu o apelido de tata, e mimou todas as irmãs, quando pequena eu vivia mexendo no guarda roupa dela cobiçando os belos vestidos rodados moda da época, ela tinha vários e o que eu mais almejava era um azul celeste com salpicos de bolinhas brancas e vários saiotes.
Lembro que quando completei seis anos o meu presente foi escolher três brinquedos num
parquinho de diversões, então escolhi roda gigante, carrinhos roda roda e trem fantasma, neste ultimo brinquedo fiquei de olhos fechados e depois contei vantagem de tudo que não vi.
Lembro uma vez em que eu devia ser ainda muito pequena, ela falou brincando que ia me levar junto para trabalhar, eu fiquei toda empolgada, e junto com a minha mãe a acompanhamos ate o ponto de ônibus, eu não parava de tagarelar toda feliz pensando que ia junto, mas ela entrou no condução e minha mãe me segurou, eu me debatia e chorava querendo ir junto, mas mesmo pequena sabia dentro de mim que isso nunca ia acontecer.
O dia da semana que eu não gostava era o sábado, pois neste dia a tata fazia limpeza em casa e não dava trégua, colocava as três irmãs para ajudar.
Naquele tempo a limpeza era bem mais difícil, as casas tinham piso de tacos ou assoalhos, e para ficar limpo e bonito precisava esfregar o chão com palha de aço, e mesmo pondo panos em cima as pontas perfuravam o pano e entravam na carne da mão fazendo pequenos cortes ardidos, depois tinha que varrer muito bem, passar um pano bem úmido e naquele tempo querosene para tirar todas as impurezas do chão, e depois de joelhos passar a cera que era em pasta com um pano, depois de seca ai passava o escovão de ferro para lustrar (não tinha enceradeira na época e hoje em dia as ceras já são auto brilho)
Ela tinha a mesma autoridade que minha mãe sobre as três irmãs, chamava atenção, dava
ordens e aplicava castigos físicos quando achava necessário. Mas com o passar do tempo adolescência chegando foi ficando cada vez mais difícil para ela controlar as irmãs e manter a sua autoridade, pois cada uma de nos tinha um gênio diferente, lembro uma vez no dia do aniversario do irmã autoritária em que ela completava dezessete anos, as duas discutiram não lembro mais o motivo, a tata estava se arrumando para ir trabalhar, a Soni estava deitada e apanhou na cama mas não ficou quieta, falou tudo que achava de direito, mas eu, eu fiquei no meu canto bem quietinha.
Já com a irmã ignóbil relatei em capítulos anteriores uma certa vez que a tata foi busca-la na rua e a trouxe para dentro de casa pela orelha, as duas se pegaram e eu entrei no meio para separa-las e deu no que deu.
Comigo foi depois de algum tempo que comecei a trabalhar, aprendi a falar algumas palavras feias com as colegas da empresa e um dia em que estávamos voltando da escola (ela fazia curso a noite completando ensino médio e estávamos na mesa sala) repeti as palavras para ela e apanhei no meio da rua, foi ai que começou as nossas desavenças.
Ela se intrometia muito nas assuntos das irmãs principalmente da Soni, a Soni morava em outra cidade bem próximo do nosso pai e os dois faziam muitos negócios juntos, em todos a Ani se intrometeu, meu pai entrou em entendimento com a Soni e comprou uma Brasilia bem vistosa para ela pagar depois, mas a tata se intrometeu no meio e não deixou, então meu pai ficou com a brasilia mais nova e depois vendeu a outra mais antiga para a Soni. 
A Soni queria muito uma chacrinha que estava a venda numa cidade do interior de Minas
Gerais terra dos meus pais, meu pai sabendo disso resolveu comprar a chacrinha e por no nome dos três filhos da Soni, e para meu filho ele prometeu comprar uma chacrinha que estava a venda do lado da sua, eu fiquei muito feliz com a noticia, mas no dia que ele estava se arrumando para ir comprar a chacrinha em Minas Gerais a Ani grudou no pai e foi junto, quando voltaram a chacrinha estava no nome dela.
Passaram-se anos meu pai faleceu e ela acabou vendendo essa chacrinha por uma ninharia e teve que repartir em oito partes pois dois irmãos se casaram e teve mais 4 sobrinhos para dividir o valor o que deu quase nada para cada um visto que ela vendeu muito barato, a Soni se recusou a receber a quantia destinada aos filhos dela, mas a Ani entregou nas mãos dos sobrinhos.
E assim passou o tempo, voltamos a ficar amigas, ela arrumou emprego para mim na empresa em que trabalhava, casei tive um filho e dei para ela batizar, ela mimou os sobrinhos mais do que mimou as irmãs, e isso também foi motivo de desentendimento entre ela e a Soni, pois a tata se intrometia demais nos assuntos da Soni com os filhos.
Mas os sobrinhos cresceram e cada qual tomou o seu rumo, a tata aposentou e foi morar em Minas Gerais com o filho e com a nossa mãe, mas passado alguns anos a mãe quis voltar para São Paulo mais especificamente para a cidade onde alguns filhos estavam residindo, e foi assim que a Ani veio para a grande Jundiaí e se estabeleceu ate seus últimos dias

(continua no próximo post)