quinta-feira, 27 de setembro de 2018

MENINA FEIA, MENINA BONITA

Eu devia ter por volta dos oito anos de idade quando comecei a perceber que pessoas bonitas fisicamente tinham mais atenção e melhor trato.
Eu sou uma mulher perfeita, não tenho defeitos físicos, e apesar de estar na casa dos sessenta anos ainda tenho um corpo esbelto, seios firmes e não uso prótese dentaria, todos os dentes da minha boca são saudáveis, mas não fui uma criança bonita e não sou uma mulher bonita.
Ao contrario da minha irmã caçula cuja beleza chamava atenção desde criança, e na adolescência ganhou um corpo de  curvas bem femininas  e seios fartos (mas flácidos) que faziam todos os rapazes deseja-la, vou narrar neste post como ao passar do tempo notei estas diferenças.
Antigamente o leite era vendido em um litro de vidro característico, quem não tinha esse litro para trocar na hora da compra levava uma leiteira e tudo bem, como o bar na esquina da nossa rua começou a vender leite minha mãe me deu uma leiteira para eu ir la comprar, eu deveria ter por volta de uns nove anos de idade nesta época, cheguei no bar e estava entrando quando ouvi o balconista falar pra mim em voz alta:
- não tem leite
Então dei meia volta e desci a rua em direção a minha casa, eu sempre fui rápida para andar e sou ate dias de hoje, minha mãe me esperava no portão:
- o moço falou que não tem leite
- você não foi ate o bar,  não teria dado tempo
Ela mandou minha irmã menor que estava na casa dos sete anos, ela voltou com a leiteira cheia, e eu levei bronca, naquele dia comecei a pensar no acontecido e avaliar porque o balconista recusou vender leite para mim para em seguida vender para minha irmã, e falando com meus botões cheguei a conclusão que o balconista só vendia leite para meninas bonitas.
Eu estava cursando o quarto ano escolar quando ganhei do meu pai um pequeno radio de pilha que apresentou defeito, na avenida fagundes filho tinha uma oficina de consertos de aparelhos de tv, rádios e similares, eu estava com o pequeno aparelho nas mãos e fui entrar na oficina para ver se o radinho tinha concerto, não cheguei a entrar e nem a perguntar nada, pois o rapaz la de dentro olhou pra mim e falou em voz alta que não concertava rádios daquele modelo.
Terminei o primário e fiz um ano de admissão ao ginásio ou o quinto ano (ninguém entrava no ginásio sem fazer admissão ao ginásio) este foi o melhor ano para mim,  me sentia feliz, paquerei os menininhos, eu era muito magrinha então vestia duas calças para a roupa ficar mais justa, gostava de ficar desfilando na rua, ir na papelaria só para ver um rapaz que trabalhava numa oficina, ele sempre retribuía meus olhares.
Ano seguinte fiz o pequeno vestibular para o colégio estadual mais concorrido da cidade de São Paulo,  Prof Roldão Lopes de Barros no bairro do Cambuci, neste colégio a criança entrava no pre-primário e saia praticamente para a faculdade, era considerado a melhor escola estadual entre todas, e o  que mais chamava atenção era que no ensino colegial o aluno poderia escolher, entre normal, clássico e cientifico.
Mas o que tinha de ruim, os alunos na maioria rapazes do curso colegial praticavam bulling com os alunos do ginásio, eu fui uma vitima de carteirinha, tinha meus livros derrubados da minha mão, quando me abaixava para pegar vinha um e os chutava longe, quando passávamos em direção a sala de aula eles formavam um corredor polonês e humilhavam os alunos de varias formas, a preferida era ficar na frente enquanto passávamos e assobiarem estalando os dedos como se estivessem chamando cachorros.
Certa vez eu estava descendo a escadaria do portão de entrada para o patio do colégio e tinha uma
grupo do colegial conversando entre moças e rapazes, ao passar um deles falou apontando na minha direção:
- La vai a menina mais feia da escola
Senti meu coração apertado pela vergonha, abaixei minha cabeça e segui descendo a escada fingindo que não tinha ouvido.
Nesta época começaram a formar as famigeradas equipes em sala de aula, onde os alunos são divididos em vários grupos, então na minha equipe tinha meninos e meninas, entre eles dois alunos que nunca esqueci, Alexandre o bonitinho e Naristeu um rapaz mais robusto muito falante, e tinha uma menina de 14 anos muito vistosa, popular e bonita, de unhas compridas pintadas, maquiagem e uniforme bem justinho
Era a professora que sorteava o membros de cada equipe, um dia cheguei na sala de aula e sentei ao lado dessa menina, o Alexandre sentou num banco sozinho, mas antes falou bravo comigo:
- vc tinha que sentar ao lada da fulana? (não lembro mais o nome da menina)
Pensei comigo:
- é porque ela é bonita e eu sou feia.
Em outra ocasião eu fiquei numa carteira de dois lugares e a unica carteira de um lugar estava ocupada, os dois meninos Alexandre e Naristeu sentaram longe da equipe discutindo entre si, pois nenhum queria sentar ao meu lado apesar da professora ordenar que um deles deveria vir para o grupo, o Alexandre levantou a contragosto e veio sentar-se comigo, eu nem olhei para a cara dele de tão chateada que fiquei. 
Resolvi trabalhar e rápido consegui emprego, pedi transferência para outro colégio próximo da minha casa para o horário noturno, uma noite durante o intervalo, eu estava no patio, um menino passou perto de mim e cuspiu, me afastei e ele cuspiu novamente e novamente, não sei como é dias de hoje, mas naquela época quando um rapaz cospe perto de uma moça quer dizer que ele a despreza por vários motivos  mesmo que não a conheça como era o meu caso
e isso aconteceu diversas vezes quando eu era jovem.
Teve um tempo em minha juventude que eu e minhas irmãs passávamos feriados e finais de semana na praia em barracas com amigos, um dia andando perto dos quiosques na areia, vi dois jovens senhores bebericando e comendo frutos do mar, ouvi o terrível comentário de um deles dirigido a mim:
- isso é que é avacalhação, não tem atrativo algum e andando de biquíni por ai
Senti meu coração apertar, apressei meus passos e segui para a barraca, eu não era tão feia assim, eu era uma mulher pequena, magra mas não ao extremo, barriga tanquinho, peitos pequenos e firme, usava um biquíni discreto, nunca entendi tanto preconceito assim na minha vida, mas foi por causa de tantos comentários maldosos que me tornei  introspetiva, fechada e com muito medo do sexo masculino, não fazia amizade com rapazes.




Nenhum comentário:

Postar um comentário