Minha mãe engravidou de seu ultimo filho aos quarenta anos, naquela época eu tinha seis anos e lembro da sua barriga volumosa e uma vizinha perguntando para mim...
- cade o bebe da mamãe?
Eu sabia onde estava o bebe, mas como eu sabia e porque sabia não sei dizer, pois naquele tempo certos assuntos eram tabu para crianças, respondi passando a mão na barriga da minha mãe...
- esta aqui...
Minha mãe sorriu amarelo, e depois que a vizinha foi embora ela me pegou pelo braço...
- quem falou para você que eu tenho um bebe na barriga?
Não lembro se respondi ou fiquei calada, só lembro do pavor que senti, pois sabia que podia levar uma boa surra.
Pouco tempo depois ela foi para o hospital onde deu a luz a um menino saudável mas com um dos pés virado para dentro, mesmo naquele tempo, cinquenta e oito anos atras, já existiam procedimentos médicos para contornar pés tortos, lembro que meu irmão usou gesso que era trocado de tempos em tempos ate o pé ficar perfeitamente correto.
Esse menino passou a ser a vida da minha mãe, tudo era por ele e para ele, acabou o pouco carinho
dela pelas filhas, o mundo dela passou a girar em torno do ``FILHO ÚNICO´´
Ela trabalhava na casa vizinha a nossa lavando roupas três vezes por semana, e nos dias que estava em casa lavava roupas para diversas freguesas, e quem cuidava do bebe? EU!
Acabou a minha infância, minha vida era ficar balançando o carrinho o tempo todo e aquele moleque berrando o tempo todo...
- faça esse bebe parar de chorar ou te corto no fio de ferro!
Minha mãe gritava do tanque, e eu chorava junto com a criança, pois não tinha permissão para pegar ele no colo por ser muito pequena.
Explicando o fio de ferro, naquele tempo não existiam os ferros automáticos, eles eram elétricos, tinha um plug que ligava o fio no ferro, um fio longo com um plug na extremidade que ligava na corrente elétrica, esse ferro ia esquentando e a pessoa que utilizava tinha que desconectar conforme a temperatura que queria, minha mãe passava roupas também, e por diversas vezes esqueceu o ferro na tomada, a mesa que era utilizada para passar roupas tinha um buraco do lado direito provocado pela alta temperatura do ferro que só ia esquentando cada vez mais e chegava a provocar incêndios. O fio elétrico tinha uma segunda finalidade, castigar fisicamente crianças.
Eu entrei para a escola aos seis anos e meio, e alem da responsabilidade de cuidar do bebe também ganhei a responsabilidade de cuidar da casa, a irmã mais velha trabalhava fora, a irmã acima de mim cuidava da cozinha e da comida, eu era responsável pelo cuidado do bebe, sala e dois quartos, e passei também a ter obrigação de lavar roupas para as freguesas da minha mãe (já contei essa estoria num post anterior) e quanto a irmã caçula minha mãe a considerava pequena para afazeres domésticos, e só ia ter obrigações dentro de casa ao ingressar no primeiro ano escolar como as demais.
O tempo passou o moleque cresceu, e com ele o amor de minha mãe cada vez maior, ele ganhou uma bicicleta que foi roubada tempo depois, minha mãe comprou outra, ele teve gravador (só gravador de fitas existia naquele tempo) teve aparelho de som 3 em 1, carrinhos e tudo que ele queria minha mãe comprava para ele, responsabilidade dentro de casa? nenhuma, era só rua o dia inteiro, não me conformando perguntei para minha mãe...
- mãe, porque o Edu passa o dia todo na rua e não faz nada dentro de casa?...
- ora, menino tem que ser criado solto na rua...
Nunca entendi uma coisa dessa, certa vez quando ele estava entrando na adolescência arrumou confusão com um bando de moleques adolescentes, e precisou minha irmã mais velha ir busca-lo na rua para evitar que ele fosse agredido.
Aconteceu também dele começar a andar em ma companhia, e alguém, algum vizinho foi falar com essa minha irmã mais velha, e ela foi falar com a nossa mãe, mas a minha mãe surtou e falou que o filho dela não estaria na companhia ``daqueles moleques desordeiros´´ e foi falar com o filhinho querido...resultado, com apenas doze ou treze anos ele tentou agredir a irmã adulta.
outro fato terrível que aconteceu em relação ao filhinho único e que marcou para sempre a vida de uma criança vou narrar no próximo post, se ela o perdoar, eu o perdoarei...
(continua no próximo post)



