domingo, 21 de outubro de 2018

A IRMÃ IGNÓBIL E O FIM DA AMIZADE


Família, nosso bem maior, nosso porto seguro, conhecemos como família nossos pais e irmãos todos vivendo na mesma casa, nossos parentes como avos, tios, primos que visitamos sempre que possível. 
Mas viver em família nem sempre é fácil, lembro dos meus pais brigando na frente dos filhos, a angustia que eu sentia nesses momentos, minhas irmãs, a mais velha sempre trabalhando, minha mãe lavando roupas para ajudar na despesa da casa,  em casa eu e duas irmãs, a Soni dois anos mais velha do que eu e a que sempre me provocava, e a Elise dois anos mais nova que não parava dentro de casa, minha mãe ia buscar ela na rua debaixo de espadada de são jorge, mas era só descuidar e la estava ela na rua novamente.

 
Não lembro desta irmã me provocar no decorrer da infância como a Soni me provocava  acabando na maioria das vezes em agressões mutuas, mas tudo mudou quando entramos na adolescência, ela era uma criança muito bonita, e ao entrar na puberdade se tornou uma linda jovem cobiçada por todos os rapazes.
Por um acontecimento de quando ela tinha treze anos acabamos de nos tornar muito unidas, num final de semana ela como sempre estava na rua, ouvi choro e gritos, fui ver o que estava acontecendo, minha irmã mais velha Ane estava trazendo ela a segurando pela orelha, começou uma discussão e virou pancadaria, não entendi como fui parar no meio das duas impedindo que continuassem a se agredir, como eu não estava bem com a Ane tomei partido da Elise e falei algo bem pesado para a Ane que ate dias de hoje me arrependo.
O resultado dessa briga foi o inicio de uma grande amizade e cumplicidade que nasceu entre eu e essa
irmã mais nova, tirávamos sarro da Ane sempre que ela esta em casa, vivíamos de cochichos e risadinhas uma com a outra, e de tando a Elise insistir acabei mudando do colégio em que fazia o ginasial para o colégio em que ela estudava...
- muda para o Lígia, assim nos ficamos mais juntas...
- ah eu não sei...
Eu trabalhava durante o dia numa empresa farmacêutica e estudava a noite, a Elise não trabalhava mas estudava a noite também, e como eu sofria bulling no colégio, resolvi ir para o Lígia acreditando piamente que ficaríamos juntas.
Primeira noite chegamos no patio ela me apresentou aos seus amigos e me esqueceu! fiquei que nem boba ao lado enquanto ela toda popular falava e ria numa roda de amigos se portando como se eu nem estivesse ali, e assim foi por alguns tempo ate que achei melhor não a procurar mais durante o recreio. 
Quando eu mudei para a escola que ela estudava, o ano letivo já tinha começado ha uns dois meses
  eu não conhecia ninguém, não conseguia fazer amizades, e as equipes dentro da sala de aula já estavam formadas, nenhuma equipe me quis, acabei fazendo par com um outro aluno que também estava sozinho, mas acabamos nem conversando. 
Eu me sentia perdida num oceano, no recreio não podia ficar na sala de aula então eu procurava o lugar mais deserto e escondido atrás da escola e la passava os quinze minutos de intervalo,  a companhia da minha irmã todas as noites era só ate o portão do colégio, depois disso ela me ignorava por completo.


Por ironia do destino um moço que estudava nesta escola e tinha uma grave deformação nas pernas por causa de uma doença infantil chamada poliomielite me chamou  atenção de um modo muito peculiar, sempre que eu o via na entrada do colégio cercado pelos amigos, eu sentia um frio que iniciava nos pés e subia percorrendo minha espinha e acabava numa tremedeira e coração acelerado, eu ainda não conseguia definir esse sentimento que ansiava pelo encontro no portão todas as noites, sem que eu me desse conta comecei a me arrumar para ir a escola com mais esmero, me maquiava, passava batom, queria ficar bonita...
- porque você esta se arrumando tanto pra ir na escola?
- porque sim...
A partir deste momento ela me bombardeou com comentários como quem não quer nada..
- esta vendo aquele manquinho la na frente? é namoradinho da Lígia (uma amiga dela)
Senti mal estar mas não respondi o comentário dela, mas toda noite ao chegar na escola ela voltava a
carga novamente...
- A Lígia não gosta do manquinho, mas ele não larga o pé dela (expressão antiga quando alguém não quer terminar o namoro).
- la vai o manquinho namoradinho da Lígia. (noutra noite) 
Eu sentia o coração apertado e tentava entender o que minha irmã e suposta amiga queria com aquilo tudo, ate que um dia que ela chegou em casa e disparou...
- Rose do céu! você não sabe o que aconteceu, aquele manquinho namoradinho da Lígia estava na rua com os amigos em frente o colégio quando passou um carro em alta velocidade e o atropelou, ele foi levado para o hospital em estado grave falaram que morreu.
Foi um choque pra mim, senti meu coração quase parar dentro do peito e não via a hora de ir para a escola e saber melhor o que tinha acontecido.
Dezenove horas e quinze minutos saímos de casa para o colégio, meu coração aos pulos ansiando por noticias, mas próximo ao portão da escola la estava o rapaz cheio de vida rindo e brincando com os amigos, fiquei super mal pela mentira infame, e ao mesmo tempo perguntando...
- porque???
Não cheguei ate a segunda aula, passei mal na sala e precisei voltar para casa, indagando para ela o porque de uma mentira tão sem sentido ela só respondia..
- não sei! não sei!
Mas eu soube, ela, não sei como descobriu antes de mim que eu estava apaixonada pelo rapaz, e como não era do seu interesse ser vista ao lado de alguém deficiente físico então ela resolveu me atormentar da forma mais vil (explicarei ainda neste capitulo)
Foi depois deste triste episodio que eu descobri minha paixão pelo menino, e com ajuda de uma prima que na época estava morando em casa fui a um baile com ele, mas o namoro não deslanchou.
Agora vou falar dessa irmã Elise, depois deste triste episodio é que vim a conhecer o seu caráter podre, conversei com minha irma Soni sobre esse episodio lamentável com todos os detalhes, então ela confessou para mim o que a Elise tinha aprontado para impedir que um rapaz a pedisse em namoro.
O apelido dele era Bequinho, um menino inteligente, simples e de boa família que estudava com a Soni na mesma escola e horário, ele foi umas duas vezes em casa na intenção de pedi-la em namoro, acontece que a Elise o interceptava no portão se insinuando para ele, ela muito bonita não passou desapercebida e o Bequinho passou a corteja-la, só que depois que ela conseguiu o que queria deu um belo pontapé na bunda dele, então ele foi falar novamente com a Soni que lhe respondeu...
- a minha casa não é mercado de peixe!
Passou dois anos, este fato eu presenciei e não foi a Soni que me contou,  aos dezoito anos fiz amizade com uma garota chamada Alzira, ela era muito bonita de rosto, com olhos verdes cílios
compridos e espessos, acabei fazendo amizade também com o irmão dela Toninho, tão bonito como ela e com os mesmos adjetivos, ele acabou se interessando pela Soni e os dois começaram a namorar.
A Soni tinha um nariz avantajado e curvo (chamado nariz de tucano) e bastava ela estar com o namorado ou amigos para a Elise arrumar algum motivo para falar do nariz dela...
- porque essa sua lapa...
Ela começou a se insinuar para cima do Toninho, lembro de uma vez em que ele chegou em casa e ela se pôs a cantarolar uma musica qualquer tentando disfarçar a ansiedade, pensei comigo...
- ela esta disfarçando pra ir la dar em cima do namorado da Soni...
Dito e feito, ela arrumou um pretexto e foi la se meter no meio do namoro dos dois, não sei o que aconteceu que ela veio voando para dentro de casa e na ânsia de pegar um vidro cheio de mercúrio o derrubou no chão quebrando, ai ela voltou pra fora com um chumaço de algodão embebido no mercúrio.
Bom, o resultado é que ela conseguiu acabar com o namoro dos dois, a Soni encontrou um bilhete dele para a Elise com palavras melosas,  teve ate um episodio em que minha irmã mais velha foi acampar na praia e a Elise junto com três amigas e o Toninho foram também, aconselhei a Soni a ir ...
- Vai também Soni, não de o braço a torcer para a Elize...
Ela foi, mas voltou antes do termino do passeio, pois la na praia foi uma humilhação atras da outra, pois as ``amigas´´ da Elise davam em cima do rapaz descaradamente, teve ate uma xará da Elize que fez algo bem mais...numa conversa que seguiu para conteúdo sexual ela agarrou o membro do rapaz por cima do calção e falou...
- eu corto o seu negocio Toninho!
Tudo isso na frente da Soni e sabendo que ela gostava do moço, minha pobre irmã não aguentou e  voltou pra casa arrasada, resolveu que ia fazer uma plastica no nariz e se internou no hospital da Beneficiencia Portuguesa onde realizou o procedimento, depois foi se recuperar da cirurgia na casa de uma tia nossa com quem ela tinha uma grande amizade.
A Soni era bem gordinha, mas quando ela retornou para casa tinha perdido uns vinte quilos, o nariz que antes era de tucano, agora era arrebitadinho e bonito, assim que a Elise a viu já comentou logo...
- Fez plastica no nariz hem?
Passou tempo, o Toninho depois de levar o pé na bunda quis voltar para a Soni, mas ela apesar de ainda gostar dele recusou e nem quis atende-lo, ai ele começou a pedir para minha mãe falar com ela, sem resultados.
A Soni conheceu outra pessoa no serviço e se interessou por ele, namoraram, a Elise bem que tentou mas este realmente amava minha irmã e se casaram, e até mesmo na véspera do casamento o Toninho desesperado pedia para minha mãe interceder por ele e não deixar a Soni casar, mas ela casou e teve três filhos, infelizmente o marido faleceu aos cinquenta e nove anos deixando muitas saudades.
Voltando ao passado: depois do triste episodio na escola fiquei só mais alguns dias e resolvi deixar os estudos, minha mãe a contra gosto permitiu com a condição de que mais tarde eu voltasse a estudar.
Naquele idos dos anos 1973 fazíamos bailinhos em casa que consistia numa vitrola, discos e alguns refrigerantes, convidávamos amigos e os amigos traziam amigos e assim a festa acontecia.
Num desses bailes conheci um garoto muito bonitinho chamado Walter que estudava no colégio Lígia
onde minha irmã ignóbil ainda estudava, ele era loirinho, cabelos nos ombros, olhos azuis.
Passamos a ficar juntos não só nos bailes da minha casa, mas nos diversos bailes que aconteciam no nosso bairro em finais de semana.
Naquele tempo o termo ficar era só ficar mesmo, ou seja, o casal se encontrava apenas nos bailes, dançavam a noite inteira juntos, trocavam alguns beijos e abraços e no final da festa cada um ia para a sua casa sem mais promissos.
Certa noite num baile que aconteceu na minha residencia eu estava na companhia do Walter num canto da sala abraçado a ele, conversávamos com algum amigos quando a Elise se aproximou de nos e falou gritando alto para todo mundo ouvir uma serie de coisas para o Walter, e no final ela não só humilhou o menino mas indiretamente ou diretamente a mim também.
-  pois fique sabendo que eu tenho coisa mil vezes melhor que você!
Fiquei boquiaberta com a declaração dela, ela tinha um namorado e considerava o namorado mil vezes melhor que meu ficante? então a pessoa com quem eu ficava não valia nada segundo esse ser? eu me senti humilhada e perguntei para o Walter...
- o que foi isso?
- sua irmã é muito fresca.
Ele não quis comentar mais nada, eu sou muito devagar para entender as coisas assim de supetão. Muitos anos se passaram, quando eu já estava na casa dos quarenta, certa manhã indo para a residencia da minha mãe após terminar o plantão noturno no hospital em que trabalhei por mais de vinte anos (eu não morava mais em São Paulo, mas na minha própria casa em outro município) alguém me parou na rua perguntando se eu não me lembrava dele...
Olhei para aquele belo homem ainda jovem e não o reconheci pensando em se tratar de um engano...
-  não estou lembrada do senhor...
- eu sou o Walter que ficava com você nos bailes...
Fiquei olhando para ele sem acreditar...
- você esta mais bonito agora...(foi tudo que consegui falar)
- e você não esta nada mal...(sorrindo)
Conversamos por meia hora mais ou menos relembrando os bons tempos da juventude, então lembrei da noite em que a Elise o agrediu verbalmente...
- Walter, você lembra da noite em que estávamos juntos num baile na casa dos meus pais e uma irmã minha veio falar coisas para você?
- ah, lembro...
- ate hoje penso nisso, não entendi o comportamento dela e você não quis comentar...
- bom, la na escola Lígia ela veio me falar umas coisas a seu respeito e ficou se insinuando para mim...
- como???...
- eu falei que não tinha interesse em ficar com ela e me afastei, acho que por isso ela ficou tão brava...
- nossa! eu nem sei o que dizer...
- não precisa, eu não te contei nada na época porque não queria te magoar, agora esquece isso.
Conversamos mais um pouco e nos despedimos com beijinho no rosto, nunca mais o vi, mas nunca o esquecerei, um menino que na época tinha dezesseis anos e já era um homem digno e honrado não dando trela para alguém que alem de dar ``em cima´´  do ficante da irmã ainda falava mal da mesma com o proposito de acabar com o relacionamento.
O primeiro rapaz que a Elise conseguiu estragar o namoro com a Soni, o Bequinho, namorou comigo por algum tempo, mas eu não gostava dele como namorado e depois de uns seis meses de namoro nos separamos, passado algum tempo ele começou a namorar outra garota mas sempre vinha em casa, ate que um dia ele quis voltar a me namorar, naquele tempo os amigos se reuniam em nossa casa, tocávamos discos e dançávamos sem malicia alguma, ele quis dançar comigo, e durante a dança ele me abraçou e queria me beijar, mas a Elise ficava me chamando brava e acabou discutindo comigo, deu tanto o que falar que chegou nos ouvidos da minha mãe e o Bequinho se viu na obrigação de dar uma explicação a ela para desfazer o mal estar que a Elise tinha causado.
Em finais de semana eu sem namorado saia muito com minhas amigas, ou então ia com a Soni para a casa do namorado dela, ele tinha irmãos mais jovens que sempre recebiam amigos, certa vez o Leo veio falar comigo...
- pois é Rose, um amigo do meu irmão ficou interessado em você e quis vir comigo para te encontrar, como você não estava ele ficou no portão na esperança de você voltar logo, mas a Elise de alguma forma descobriu que ele queria namorar você e ficou la fazendo companhia pra ele...
O resultado é que ela namorou um mês com esse moço que sequer cheguei a ver, depois como sempre fazia deu um pontapé na bunda dele..

(continua no próximo post)


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